
Uma empresa fictícia lançou um portal de vagas para o programa de contratação de candidatos e candidatas com deficiência. O RH, num esforço para promover a diversidade e a inclusão na organização, aprovou o layout. Enquanto isso, a agência de marketing criou as peças. Já o time de tecnologia criou o site para esse processo seletivo, que deveria ser acessível. Tudo parecia pronto, mas o projeto já nascia contra uma ideia que o movimento de pessoas com deficiência resume em quatro palavras: “nada sobre nós, sem nós”.
Entretanto, nenhuma pessoa com deficiência (PcD) participou de nenhuma das etapas citadas. No lançamento, pessoas candidatas não conseguiram concluir a inscrição por causa de quatro barreiras:
O portal inacessível é o detalhe que impede a candidatura da pessoa, o que nos leva a inquietantes reflexões. Como uma iniciativa feita para pessoas com deficiência provocou tanta exclusão digital?
O lema “nada sobre nós, sem nós” responde a essa questão: projetos e ações feitos para pessoas com deficiência acabam excluindo essas pessoas quando não as envolvem desde a concepção. Aprofunde seu entendimento sobre o lema nas linhas abaixo.
O significado do lema “nada sobre nós, sem nós” pode ser compreendido com base nos textos de Romeu Kazumi Sassaki, referência brasileira no tema:
Para Sassaki, o envolvimento do público com deficiência acontece em todas as etapas, desde a elaboração até o aperfeiçoamento contínuo, não somente na aprovação final.
Dentro do contexto do lema, o exemplo do portal de vagas é um “resultado” e foi produzido “sem nós”. Se a ideia de estimular o protagonismo é tão importante, como essa ideia tão potente nasceu?
É comum encontrar variações diferentes da origem desse lema, embora essas versões não encontrem respaldo nas fontes. Alguns consideram que foi uma criação da ONU, enquanto outros mencionam que os Estados Unidos do início do século XX criaram o lema.
A versão mais bem documentada situa a adoção do lema no movimento de pessoas com deficiência da África do Sul: a organização Disabled People South Africa (DPSA), fundada em 1984. A DPSA adotou a ideia em 1986, de acordo com o ativista William Rowland.
A obra Nothing About Us Without Us, publicada em 1998 pela University of California Press e escrita por James Charlton, popularizou a expressão. Charlton conta que ouviu a frase pela primeira vez em 1993, na África do Sul, de lideranças da DPSA. Segundo ele, essas lideranças a tinham ouvido de um ativista do Leste Europeu numa conferência internacional.
Vale um cuidado: o texto de Sassaki, muito reproduzido no Brasil, data o livro de Charlton em 1993, mas esse é o ano em que o autor ouviu a frase. O lema também foi tema do Dia Internacional das Pessoas com Deficiência em 2004.
As palavras ganharam força no processo de construção da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. No Brasil, a Convenção tem status de norma constitucional e foi promulgada pelo Decreto 6.949/2009. O texto não traz a frase do lema, mas incorpora o princípio da participação.
O ponto central é que o lema defende a autorrepresentação da pessoa com deficiência e a eliminação de barreiras. Ao participar da cocriação de soluções, o público usuário usufrui de autonomia e de uma vida independente.
As ações das organizações de pessoas com deficiência inspiradas pelo lema envolvem direitos humanos, inclusão, promoção do modelo social da deficiência e combate ao capacitismo.
O lema nasceu em protestos contra decisões tomadas em nome das pessoas com deficiência, sem a participação delas. O portal de vagas fictício é uma decisão desse tipo, só que digital.
A Convenção e a Lei Brasileira de Inclusão (LBI) entendem a deficiência como interação com barreiras. Já a barreira digital é criada por decisões em projetos. Por isso, a acessibilidade digital depende das escolhas de quem desenha, escreve e programa.
Quem vive a barreira identifica o que uma equipe sem essa experiência não percebe. E o custo de não perceber aparece no negócio: um processo seletivo que candidatas e candidatos com deficiência não conseguem concluir compromete a meta de inclusão da própria empresa.
Esse resultado também enfraquece o que a organização declara em relatórios de ESG e de diversidade e inclusão (D&I). O portal da introdução carrega entraves que teriam aparecido no primeiro teste com uma pessoa usuária de leitor de tela, uma pessoa surda e uma pessoa com TDAH ou dislexia.
Cada etapa do ciclo de desenvolvimento de um produto digital pede a participação das pessoas com deficiência que vão usá-lo. As linhas abaixo vão exemplificar isso melhor a partir do portal de vagas citado na introdução.
A participação das pessoas com deficiência começa com a definição do problema que a inovação resolve, antes mesmo de qualquer tela. Saber quem usa o portal, com quais tecnologias assistivas e em quais situações são questões que exigem respostas coletivas.
Exemplo negativo: as decisões de negócios permanecem só entre RH e agências, sem levar em consideração as pessoas com deficiência antes de fechar o escopo.
Exemplo positivo: a opinião do público orienta melhor o planejamento inicial e a definição do que o produto resolve. Isso pode reduzir os custos de correções após a conclusão do projeto.
A escolha de layout, texto, vídeo e formulário cria ou remove barreiras.
Exemplo negativo: um projeto de portal inacessível apresentaria vídeos sem legenda e sem Libras, além do CAPTCHA visual.
Exemplo positivo: um portal acessível, com vídeos legendados, janela com intérprete de Libras e CAPTCHA acessível para pessoas com deficiência visual.
Nos testes com usuários, há uma diferença entre a equipe avaliar o próprio site e pessoas com deficiência navegarem por ele usando tecnologias assistivas do dia a dia. Por isso, a avaliação com pessoas usuárias é fundamental nos testes de usabilidade.
Além disso, parte dos critérios da WCAG, as diretrizes internacionais de acessibilidade para a web, só pode ser verificada por avaliação humana. O diagnóstico automatizado não cobre tudo.
Exemplo negativo: a equipe testa o portal com o mouse e não percebe o botão sem rótulo, que o leitor de tela não anuncia.
Exemplo positivo: uma pessoa cega testa o portal com o próprio leitor de tela e encontra o problema. Antes do lançamento, a equipe faz o acréscimo de um botão com rótulo.
O lema “nada sobre nós, sem nós” exige que o projeto inclua monitoramento contínuo, avaliação e aperfeiçoamento. Canais para as pessoas relatarem barreiras, retorno sobre atualizações e novos testes para cada mudança relevante fazem parte desse cuidado.
Exemplo negativo: deixar o teste online do portal sem possibilidade de estender o tempo limite, mesmo depois de as pessoas candidatas relatarem o problema.
Exemplo positivo: a possibilidade de prorrogar o prazo, incluída a partir dos relatos e testada de novo com quem relatou, ajudaria na navegação da pessoa usuária.
Esses pontos abrem uma questão importante: como saber se a participação foi autêntica ou só de fachada?
Abaixo, você confere um breve checklist de revisão sobre os principais erros que esvaziam o lema. No portal de vagas, nem o primeiro item aconteceu, porque ninguém foi chamado em nenhuma etapa.
O checklist acima explora muitas situações problemáticas que dificultam o alcance de iniciativas e ações inclusivas. O que nos faz perguntar: se ferramentas automáticas encontram barreiras, elas não resolvem a questão?
Ferramentas automáticas encontram parte das barreiras, como um botão sem rótulo, e acompanham o site ao longo do tempo. Mas elas não substituem quem usa tecnologia assistiva no dia a dia, porque parte dos problemas só aparece quando uma pessoa com deficiência tenta concluir uma tarefa real.
Agora, o significado do lema “nada sobre nós, sem nós” será apresentado de forma ainda mais contextualizada. Por isso, abaixo, o depoimento de Arison Lucas, do time da Perto Digital, apresenta como a participação de pessoas com deficiência entra na cocriação de soluções.
Confira as palavras do Arison Lucas:
"Para mim, participar dos processos de criação e teste dos produtos é muito importante, porque posso compartilhar minha experiência como pessoa surda e contribuir para melhorar a acessibilidade. Acredito que nós, pessoas com deficiência, precisamos participar desde o início, porque conhecemos nossas próprias necessidades e as barreiras que enfrentamos no dia a dia.
Fico feliz em poder contribuir, dar opiniões e ajudar a construir soluções mais acessíveis e inclusivas. Para mim, o verdadeiro significado de #NadaSobreNósSemNós é ter voz, ser ouvido e participar das decisões que também afetam a nossa vida."
O portal fictício teria sido mais inclusivo se pessoas com deficiência tivessem participado de cada etapa, do planejamento ao acompanhamento depois do lançamento. Com essa participação, o vídeo teria legenda e intérprete de Libras, e o botão de enviar currículo teria rótulo. O teste online daria a opção de mais tempo, e o formulário não terminaria num CAPTCHA só visual.
As palavras do lema pedem colaboração do começo ao fim para identificar e mitigar as barreiras digitais, e não um selo no lançamento. Essa escuta pode reduzir a necessidade de correções após o lançamento.
Se você quer dar um primeiro passo no seu site, um plugin de acessibilidade como o Plugin Perto ajuda a remover barreiras comuns de leitura e navegação. Ele também oferece um canal para as pessoas relatarem problemas de acessibilidade. Nenhuma ferramenta, porém, substitui o teste com quem usa: tecnologia, revisão humana e boas práticas de desenvolvimento andam juntas.
Em virtude da importância do lema para a tecnologia, a Perto Digital convida você a compartilhar o presente artigo nas redes sociais.
As perguntas abaixo fazem parte de um FAQ especialmente elaborado para tirar dúvidas e aprofundar seu conhecimento.
Levar em consideração a opinião e estimular a participação das pessoas com deficiência na criação de produtos, serviços, soluções e projetos para elas, em todas as etapas.
Não há registro de um único autor. A versão documentada com maior exatidão conecta o lema à organização Disabled People South Africa (DPSA). Segundo o ativista William Rowland, a organização adotou o lema em 1986. Já a expressão se popularizou com o livro Nothing About Us Without Us, de James Charlton, publicado em 1998 pela University of California Press.
A frase em si, não. O princípio, sim: a Convenção, promulgada no Brasil pelo Decreto 6.949/2009, lista entre seus princípios gerais “a plena e efetiva participação e inclusão na sociedade”. O artigo 4 prevê que os países consultem e envolvam ativamente pessoas com deficiência nas decisões que dizem respeito a elas.
Não. O princípio da autodeterminação, base do lema, é levado em consideração por diversos grupos e pautas contrárias à exclusão provocada por delegar decisões a especialistas. Em 2005, por exemplo, uma rede canadense ligada ao HIV/aids usou o lema no título de uma publicação sobre a participação de pessoas que usam drogas.
Times de especialistas devem levar em conta a opinião de pessoas usuárias com deficiência para identificar dificuldades de navegação em sites. Já o feedback delas aprimora o desempenho dos processos seletivos.

O que o lema significa, de onde vem de fato e o que ele pede de quem cria sites e sistemas.
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